|
Ultramontanos séc XIX
Os Católicos Franceses do Século XIX - Parte 15 - Na fase do liberalismo larvado
Até 1848 o catolicismo liberal viveu praticamente de equívocos. Os seus chefes não podiam expor claramente seu pensamento, não só para evitar a condenação da Santa Sé, como também porque a opinião católica o repeliria como contrário à Fé. Mas a tendência comodista e conciliadora de muitos católicos permitiu que, com formulações menos avançadas, ele continuasse a se infiltrar pouco a pouco, quando o momento era favorável, ou recuasse ao sofrer uma reação muito forte da opinião católica ou uma condenação do Santo Padre.
NÚMEROS DE VISISTAS A ESTE ARTIGO: 669
ALTERA O TAMANHO DA LETRA A- A+
INDIQUE ESTE ARTIGO 
Bertrand de Poulengi - Revista Catolicismo
Em qualquer movimento de idéias, devemos distinguir entre as doutrinas, de um lado, e as tendências ideológicas e os pendores afetivos do outro. As doutrinas consistem em um corpo de princípios coerentes uns com os outros, e explicitados em fórmulas de clareza cristalina. As tendências ideológicas são por assim dizer idéias incompletas, em estado de elaboração mental, portanto ainda insuscetíveis de ser traduzidas em termos nítidos e expressos. Os pendores afetivos são aspirações profundas da alma a que certas coisas sejam de certo modo. É óbvio que as aspirações elevadas auxiliam poderosamente o espírito a admitir a verdade objetiva, plena e imaculada que existe na Igreja, e as aspirações baixas toldam facilmente a visão, levando-a a imaginar a verdade onde está o erro, e o bem onde está o mal.
No chamado "catolicismo liberal" é preciso distinguir — ao menos quanto a algumas das correntes que nele existem — as doutrinas explícitas, que freqüentemente são ortodoxas, das tendências, que geralmente são heterodoxas, e dos pendores de espírito, que quase sempre se orientam para a mentalidade orgulhosa, invejosa, inimiga de toda ascese, todo freio, toda autoridade, que é o espírito da Revolução. É de capital importância tomar em consideração estes fatos, para compreender em seu sentido profundo a história tormentosa e eriçada de contradições, do chamado "catolicismo liberal".
Os princípios explícita e radicalmente liberais se chocam abertamente com o Catolicismo, e seria impossível a sua propagação entre católicos. Esta propagação se fazia pois, na França do século XIX, de forma larvada, com o disfarce de tendências de toda ordem, que levavam os católicos a aceitar quaisquer pretextos para não se opor às idéias profundamente liberais da época, para se conformar com os tempos em que viviam, enfim para levar uma vida cômoda e sossegada, sem as tribulações que lhes impunha a existência quotidiana, numa sociedade que dia a dia mais se afastava da Igreja.
Até 1848 o "catolicismo liberal" viveu praticamente de equívocos. Os seus chefes não podiam expor claramente seu pensamento, não só para evitar a condenação da Santa Sé, como também porque a opinião católica o repeliria como contrário à Fé. Mas a tendência comodista e conciliadora de muitos católicos permitiu que, com formulações menos avançadas, ele continuasse a se infiltrar pouco a pouco, quando o momento era favorável, ou recuasse ao sofrer uma reação muito forte da opinião católica ou uma condenação do Santo Padre.
O advento da República em 1848 parecia ser o instante favorável para a vitória do movimento, e sua propaganda, que até então se fizera a medo e veladamente, passou a ser aberta e a levar publicamente seus princípios às últimas conseqüências. Mas os desmandos do governo e "L’Ère Nouvelle" de Frederico Ozanam mostraram os excessos a que conduziam as tendências liberais. A reação foi tremenda. "L’Ère Nouvelle" morreu à míngua de leitores, embora não lhe tivesse faltado, infelizmente, o apoio eficaz e contínuo do arcebispo de Paris.
Montalembert, um dos grandes nomes do "catolicismo liberal", chegou a se convencer de seu erro e dar esperanças de uma benéfica reviravolta, mas foi nessa derrocada que surgiu o Padre Dupanloup. Convencido da incompatibilidade entre o liberalismo e o Catolicismo, e ao mesmo tempo percebendo como era forte a tendência liberal nos meios católicos, ele abriu mão da propaganda da doutrina liberal explícita e frontalmente contrária ao Catolicismo, difundindo entretanto a tendência para o liberalismo, já tão espalhada entre os fiéis. Desde então o "catolicismo liberal" se apresentou sobretudo como uma má tendência, conseguindo muito mais facilmente ganhar terreno entre os católicos.
O Padre Dupanloup era teoricamente ultramontano, adepto fervoroso da monarquia legítima e contrário ao galicanismo. O ultramontanismo, na sua opinião, não podia ser posto em dúvida, e um católico não poderia se afastar de seus princípios perfeitamente verdadeiros e eternos sem incorrer em apostasia. Assim sendo, o galicanismo estava completamente errado, as idéias de Joseph de Maistre eram irrefutáveis, etc. Para Dupanloup, teoricamente tudo isso era perfeitamente verdadeiro, e constituía o que ele chamava a tese. Mas uma distinção deveria ser feita. Embora a tese sendo perfeitamente verdadeira, a sociedade de então estava de tal modo afastada, que era legítimo para o católico, embora ultramontano, não recordar toda a doutrina da Igreja. Defender a inquisição, a inflexibilidade do Papa, as tradições que a Revolução de 1789 destruíra, era perigoso porque afastava da Igreja muitas almas. O católico deve ser ultramontano em tese, mas aceitar a sociedade tal como ela é. Ou seja, na prática deve ser liberal.
A célebre distinção entre tese e hipótese — legítima em si mesma, mas forçada e desfigurada pelo Padre Dupanloup — iria ser abusivamente utilizada para a salvação do "catolicismo liberal", evitando a dispersão de seus adeptos e o colocando num terreno onde muito dificilmente poderia atingi-lo a refutação ortodoxa.
O Partido Católico, porém, era um desmentido às afirmações de Dupanloup. Combatendo por um princípio, conseguira ele vencer, unindo os católicos e impondo-se à sociedade que não o queria reconhecer. O primeiro trabalho do Padre Dupanloup foi então dirigido contra o Partido Católico, que Montalembert e Luiz Veuillot tanto tinham lutado para colocar na alta posição em que se achava.
Evidentemente o Padre Dupanloup não poderia contar com Montalembert, não só pelo desânimo em que este caíra, como também porque Dom Guérenger não poupava esforços para mostrar-lhe o erro em que tinha até então vivido. Por outro lado, sendo o chefe do partido que vencera adotando uma política completamente oposta à preconizada por Dupanloup, não lhe seria fácil repudiar tantos anos de luta e defender justamente a posição que antes tantas vezes atacara. Com Luís Veuillot, o Padre Dupanloup sabia não poder contar. Ele era ultramontano sem jaça, e não admitia distinções tendenciosas como norma de conduta. Enfim, nas fileiras do Partido Católico, ou melhor, entre os seus chefes, o Padre Dupanloup não encontraria o leigo necessário para levar avante sua política.
Ele foi encontrado num jovem parlamentar que começava a ter grande nomeada: o Conde de Falloux. Jovem ainda, iniciava praticamente sua vida política. Deputado pela Vandéia, a região da França que se cobrira de glórias na Revolução de 1793, era ele ultramontano e um dos chefes legitimistas. Sua vida pública fora inaugurada no reinado de Luís Felipe, mas — a não ser a publicação de uma história de Luís XVI e de uma vida de São Pio V, com as quais fazia profissão de fé ultramontana — não se distinguira na vida parlamentar antes de 1848. Na Assembléia republicana, combateu tenazmente os revolucionários, o que lhe deu uma grande influência.
O embaixador da Inglaterra na França a ele assim se refere em suas notas:
"No naufrágio de tantas reputações subitamente lançadas nas águas turvas da revolução, não há senão uma que neste momento comanda a tempestade. Ninguém teria esperado que o Conde de Falloux — que não era conhecido na Câmara anterior senão como um fervoroso legitimista, amável e de maneiras distintas — conquistaria tão depressa a posição que ocupa nesse momento na Assembléia Constituinte republicana. Demonstrou uma calma e uma energia que lhe asseguram a ascendência mesmo entre aqueles aos quais seu nome antes não despertava nenhuma simpatia".
O cronista da "Revue des Deux Mondes" dizia: "Ele poderá ir bem longe; tem medida, tato, sangue frio, e na sua grande fisionomia o ar de um filho de cruzados".
Não tendo participado das lutas pela liberdade de ensino, e tendo conseguido rapidamente uma grande situação política, o Conde de Falloux era o homem ideal para o Padre Dupanloup levar avante seus projetos. Seu primeiro trabalho foi de o aproximar de Montalembert, para depois lançá-lo na solução do impasse em que estava a campanha pela liberdade de ensino.
|