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"A obra política da Revolução Francesa não foi senão a transposição, para o âmbito do Estado, da "reforma" que as seitas protestantes mais radicais adotaram em matéria de organização eclesiástica." (Parte I, Cap. 3, C)
Ultramontanos séc XIX

Os Católicos Franceses do Século XIX - Parte 15 - Na fase do liberalismo larvado

Até 1848 o catolicismo liberal viveu praticamente de equívocos. Os seus chefes não podiam expor claramente seu pensamento, não só para evitar a condenação da Santa Sé, como também porque a opinião católica o repeliria como contrário à Fé. Mas a tendência comodista e conciliadora de muitos católicos permitiu que, com formulações menos avançadas, ele continuasse a se infiltrar pouco a pouco, quando o momento era favorável, ou recuasse ao sofrer uma reação muito forte da opinião católica ou uma condenação do Santo Padre.

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Bertrand de Poulengi - Revista Catolicismo

Em qualquer movimento de idéias, devemos distinguir entre as doutrinas, de um lado, e as tendências ideológicas e os pendores afetivos do outro. As doutrinas consistem em um corpo de princípios coerentes uns com os outros, e explicitados em fórmulas de clareza cristalina. As tendências ideológicas são por assim dizer idéias incompletas, em estado de elaboração mental, portanto ainda insuscetíveis de ser traduzidas em termos nítidos e expressos. Os pendores afetivos são aspirações profundas da alma a que certas coisas sejam de certo modo. É óbvio que as aspirações elevadas auxiliam poderosamente o espírito a admitir a verdade objetiva, plena e imaculada que existe na Igreja, e as aspirações baixas toldam facilmente a visão, levando-a a imaginar a verdade onde está o erro, e o bem onde está o mal.

No chamado "catolicismo liberal" é preciso distinguir — ao menos quanto a algumas das correntes que nele existem — as doutrinas explícitas, que freqüentemente são ortodoxas, das tendências, que geralmente são heterodoxas, e dos pendores de espírito, que quase sempre se orientam para a mentalidade orgulhosa, invejosa, inimiga de toda ascese, todo freio, toda autoridade, que é o espírito da Revolução. É de capital importância tomar em consideração estes fatos, para compreender em seu sentido profundo a história tormentosa e eriçada de contradições, do chamado "catolicismo liberal".

Os princípios explícita e radicalmente liberais se chocam abertamente com o Catolicismo, e seria impossível a sua propagação entre católicos. Esta propagação se fazia pois, na França do século XIX, de forma larvada, com o disfarce de tendências de toda ordem, que levavam os católicos a aceitar quaisquer pretextos para não se opor às idéias profundamente liberais da época, para se conformar com os tempos em que viviam, enfim para levar uma vida cômoda e sossegada, sem as tribulações que lhes impunha a existência quotidiana, numa sociedade que dia a dia mais se afastava da Igreja.

Até 1848 o "catolicismo liberal" viveu praticamente de equívocos. Os seus chefes não podiam expor claramente seu pensamento, não só para evitar a condenação da Santa Sé, como também porque a opinião católica o repeliria como contrário à Fé. Mas a tendência comodista e conciliadora de muitos católicos permitiu que, com formulações menos avançadas, ele continuasse a se infiltrar pouco a pouco, quando o momento era favorável, ou recuasse ao sofrer uma reação muito forte da opinião católica ou uma condenação do Santo Padre.

O advento da República em 1848 parecia ser o instante favorável para a vitória do movimento, e sua propaganda, que até então se fizera a medo e veladamente, passou a ser aberta e a levar publicamente seus princípios às últimas conseqüências. Mas os desmandos do governo e "L’Ère Nouvelle" de Frederico Ozanam mostraram os excessos a que conduziam as tendências liberais. A reação foi tremenda. "L’Ère Nouvelle" morreu à míngua de leitores, embora não lhe tivesse faltado, infelizmente, o apoio eficaz e contínuo do arcebispo de Paris.

Montalembert, um dos grandes nomes do "catolicismo liberal", chegou a se convencer de seu erro e dar esperanças de uma benéfica reviravolta, mas foi nessa derrocada que surgiu o Padre Dupanloup. Convencido da incompatibilidade entre o liberalismo e o Catolicismo, e ao mesmo tempo percebendo como era forte a tendência liberal nos meios católicos, ele abriu mão da propaganda da doutrina liberal explícita e frontalmente contrária ao Catolicismo, difundindo entretanto a tendência para o liberalismo, já tão espalhada entre os fiéis. Desde então o "catolicismo liberal" se apresentou sobretudo como uma má tendência, conseguindo muito mais facilmente ganhar terreno entre os católicos.

O Padre Dupanloup era teoricamente ultramontano, adepto fervoroso da monarquia legítima e contrário ao galicanismo. O ultramontanismo, na sua opinião, não podia ser posto em dúvida, e um católico não poderia se afastar de seus princípios perfeitamente verdadeiros e eternos sem incorrer em apostasia. Assim sendo, o galicanismo estava completamente errado, as idéias de Joseph de Maistre eram irrefutáveis, etc. Para Dupanloup, teoricamente tudo isso era perfeitamente verdadeiro, e constituía o que ele chamava a tese. Mas uma distinção deveria ser feita. Embora a tese sendo perfeitamente verdadeira, a sociedade de então estava de tal modo afastada, que era legítimo para o católico, embora ultramontano, não recordar toda a doutrina da Igreja. Defender a inquisição, a inflexibilidade do Papa, as tradições que a Revolução de 1789 destruíra, era perigoso porque afastava da Igreja muitas almas. O católico deve ser ultramontano em tese, mas aceitar a sociedade tal como ela é. Ou seja, na prática deve ser liberal.

A célebre distinção entre tese e hipótese — legítima em si mesma, mas forçada e desfigurada pelo Padre Dupanloup — iria ser abusivamente utilizada para a salvação do "catolicismo liberal", evitando a dispersão de seus adeptos e o colocando num terreno onde muito dificilmente poderia atingi-lo a refutação ortodoxa.

O Partido Católico, porém, era um desmentido às afirmações de Dupanloup. Combatendo por um princípio, conseguira ele vencer, unindo os católicos e impondo-se à sociedade que não o queria reconhecer. O primeiro trabalho do Padre Dupanloup foi então dirigido contra o Partido Católico, que Montalembert e Luiz Veuillot tanto tinham lutado para colocar na alta posição em que se achava.

Evidentemente o Padre Dupanloup não poderia contar com Montalembert, não só pelo desânimo em que este caíra, como também porque Dom Guérenger não poupava esforços para mostrar-lhe o erro em que tinha até então vivido. Por outro lado, sendo o chefe do partido que vencera adotando uma política completamente oposta à preconizada por Dupanloup, não lhe seria fácil repudiar tantos anos de luta e defender justamente a posição que antes tantas vezes atacara. Com Luís Veuillot, o Padre Dupanloup sabia não poder contar. Ele era ultramontano sem jaça, e não admitia distinções tendenciosas como norma de conduta. Enfim, nas fileiras do Partido Católico, ou melhor, entre os seus chefes, o Padre Dupanloup não encontraria o leigo necessário para levar avante sua política.

Ele foi encontrado num jovem parlamentar que começava a ter grande nomeada: o Conde de Falloux. Jovem ainda, iniciava praticamente sua vida política. Deputado pela Vandéia, a região da França que se cobrira de glórias na Revolução de 1793, era ele ultramontano e um dos chefes legitimistas. Sua vida pública fora inaugurada no reinado de Luís Felipe, mas — a não ser a publicação de uma história de Luís XVI e de uma vida de São Pio V, com as quais fazia profissão de fé ultramontana — não se distinguira na vida parlamentar antes de 1848. Na Assembléia republicana, combateu tenazmente os revolucionários, o que lhe deu uma grande influência.

O embaixador da Inglaterra na França a ele assim se refere em suas notas:
"No naufrágio de tantas reputações subitamente lançadas nas águas turvas da revolução, não há senão uma que neste momento comanda a tempestade. Ninguém teria esperado que o Conde de Falloux — que não era conhecido na Câmara anterior senão como um fervoroso legitimista, amável e de maneiras distintas — conquistaria tão depressa a posição que ocupa nesse momento na Assembléia Constituinte republicana. Demonstrou uma calma e uma energia que lhe asseguram a ascendência mesmo entre aqueles aos quais seu nome antes não despertava nenhuma simpatia".

O cronista da "Revue des Deux Mondes" dizia: "Ele poderá ir bem longe; tem medida, tato, sangue frio, e na sua grande fisionomia o ar de um filho de cruzados".

Não tendo participado das lutas pela liberdade de ensino, e tendo conseguido rapidamente uma grande situação política, o Conde de Falloux era o homem ideal para o Padre Dupanloup levar avante seus projetos. Seu primeiro trabalho foi de o aproximar de Montalembert, para depois lançá-lo na solução do impasse em que estava a campanha pela liberdade de ensino.


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