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"A Cristandade ocidental constituiu um só todo, que transcendia os vários países cristãos, sem os absorver. Nessa unidade viva se operou uma crise que acabou por atingi-la toda inteira" (Parte I, Cap. III, 2)
Estudos

Auto-retrato filosófico de Plinio Corrêa de Oliveira

Condensação da parte referente a Revolução e Contra-Revolução

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Plinio Corrêa de Oliveira

Conncílio de Trento: a Igreja condena a heresia de Lutero
Um dos pressupostos desse ensaio é que, ao contrário do que pretendem tantos filósofos e sociólogos, o curso da História não é traçado exclusiva ou preponderantemente pelas injunções da matéria sobre o homem. Estas influem, sem dúvida, no agir humano. Mas a direção da História pertence ao homem, dotado que é de alma racional e livre.

Assim, ao mesmo tempo que se eleva na vida da graça, o homem vai, pela prática da virtude, elaborando uma cultura, uma ordem política, econômica e social em inteira consonância com os princípios básicos e perenes da Lei natural e da Lei de Deus. É o que se chama a civilização cristã.

Daí resulta que as nações só podem alcançar a civilização perfeita, que é a civilização cristã, mediante a correspondência à graça e à fé, o que inclui um firme reconhecimento da Igreja Católica como única verdadeira, e do Magistério extraordinário eclesiástico como infalível.

Assim, o ponto-chave mais profundo e mais central da História consiste em que os homens conheçam, professem e pratiquem a fé católica.

As crises nascem das paixões desordenadas

Há quem imagine todas as crises da cultura e da civilização como nascidas necessariamente de algum pensador, de cuja mente possante partiria sempre a centelha esclarecedora — ou destruidora — que se comunicaria primeiramente aos ambientes de alta cultura e ganharia depois todo o corpo social. É claro que, por vezes, as crises nasceram desse modo. Mas a História não confirma que assim tenham nascido todas elas. E em particular não nasceu assim a crise que determinou o declínio da Idade Média e suscitou o Humanismo, a Renascença e a pseudo-reforma protestante.

Pelo próprio fato de a Igreja pedir ao homem uma austeridade de costumes penosa para a natureza humana decaída, sua influência sobre cada alma, cada povo, cada cultura e cada civilização está continuamente ameaçada. As paixões desordenadas, atiçadas pela ação preternatural do poder das trevas, solicitam continuamente homens e povos para o mal. A debilidade da inteligência humana é explorável por essas tendências. O homem facilmente engendra sofismas para justificar as más ações que deseja praticar ou já praticou, os maus costumes que contraiu ou está contraindo. Disse-o Paul Bourget: Cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu” (Le Démon du Midi, Plon, Paris, 1914, vol. II, p. 375).

 Especialmente duas paixões podem suscitar a revolta do homem contra a moral e a fé cristãs: o orgulho e a sensualidade.

A tendência que o orgulho e a sensualidade despertam orienta-se para a abolição de toda desigualdade, toda autoridade e toda hierarquia.

A primeira revolução: Humanismo, Renascença, Protestantismo

O declínio da Idade Média foi marcado por uma explosão de orgulho e sensualidade. Essa explosão gerou tendências igualitárias e liberais, que não fizeram senão progredir nos séculos seguintes.

No Humanismo e na Renascença revela-se a hostilidade ao sobrenatural, ao Magistério da Igreja, bem como à austeridade dos costumes. No Protestantismo se encontram o livre-exame, o minimalismo em face do sobrenatural, o favorecimento do divórcio, a abolição do estado religioso, das austeridades e sujeições expressas nos votos de pobreza, castidade e obediência, e a eliminação virtual da hierarquia eclesiástica.

A segunda revolução: Enciclopedismo, absolutismo, Revolução Francesa

Tomada da Bastilha no início da Revolução Francesa
A corrupção dos costumes, que viera crescendo desde o fim da Idade Média, atingiu no século XVIII um grau que espantava até alguns de seus corifeus. A sociedade francesa, túmida dos fatores que nos países nórdicos haviam produzido o Protestantismo, se preparava, através do enciclopedismo e do absolutismo, para uma convulsão profunda, que outra coisa não seria senão a projeção na esfera política, social e econômica, com novos desdobramentos no campo religioso e filosófico, daquilo que fora a essência do Protestantismo.

O sentido igualitário, antimonárquico e antiaristocrático da Revolução Francesa é a projeção, na esfera civil, da tendência igualitária que levou o Protestantismo a rejeitar os elementos aristocrático e monárquico da hierarquia eclesiástica. O fermento comunista que trabalhava a extrema esquerda da Revolução, e que acabou por se explicitar em movimentos como o de Babeuf, não era senão o símile laico dos movimentos comunistas, como o dos irmãos morávios, que brotaram daquilo que se poderia chamar a extrema-esquerda protestante.

Cumpre insistir: o Protestantismo, o Humanismo, a Renascença não foram senão aspectos que o espírito anárquico e igualitário tomou em sua longa trajetória histórica. A Revolução Francesa não foi senão um aspecto novo e ainda mais enérgico desse mesmo espírito.

A terceira revolução: o comunismo utópico e a igualdade social

Já antes que a industrialização formasse as grandes concentrações de proletários subnutridos, o comunismo utópico denunciava como uma burla a mera igualdade política instituída pela burguesia e exigia a igualdade social e econômica absolutas. O anarquismo, que sonhava com uma sociedade sem autoridade, se propagava. Esses princípios radicais, que na fase do comunismo utópico tiveram um número restrito de militantes, não obstante alcançaram mais tarde, no Ocidente, uma prodigiosa difusão.

A grande realização de Karl Marx não foi, a meu ver, a elaboração do comunismo dito científico, doutrina confusa e indigesta que poucos conhecem. O marxismo é tão ignorado pelas bases comunistas e pela opinião pública de nossos dias quanto as elucubrações de Plotino ou Averróis. Marx conseguiu, isto sim, desencadear a ofensiva comunista mundial coligando os adeptos de uma tendência radicalmente igualitária e anárquica, toda ela inspirada no comunismo utópico.

Um substrato igualitário e anárquico

De todas estas considerações ressalta com clareza o principal fator do caos em que o Ocidente vai afundando, e para o qual vai levando o resto do mundo. Esse fator é a aceitação muito generalizada das tendências e doutrinas de substrato igualitário e anárquico, as quais, inteiramente démodées nos círculos propriamente intelectuais, continuam no entanto a influenciar a fundo a opinião pública. E assim servem de isca aos comunistas para arrastarem atrás de si, em determinadas conjunturas políticas passadas e presentes, as turbas com que pretendem arrasar os últimos resquícios de sacralidade e hierarquia da civilização cristã ainda existentes.

Se queremos pois deter os passos à nova catástrofe que nos espreita, cumpre principalmente desfazer o trágico erro doutrinário que identifica a igualdade absoluta com a justiça absoluta; e a liberdade verdadeira — à qual a Verdade e o Bem fazem jus — com o livre curso e até com o favorecimento de todos os erros e de todos os desregramentos.

Isto nos leva a pensar na Contra-Revolução.

A grande necessidade de nossos dias é assinalar os erros metafísicos fundamentais da Revolução e a coesão íntima existente entre esses três vagalhões que se jogaram sucessivamente contra a Cristandade ocidental: numa primeira etapa, o Humanismo, a Renascença e a pseudo-reforma protestante (primeira revolução); mais tarde, a Revolução Francesa (segunda revolução); e por fim o comunismo (terceira revolução).

A quarta revolução nascente

O tipo humano da quarta revolução que vêm nascendo?
Entretanto, esse panorama não seria completo se se negligenciasse uma transformação interna na terceira revolução: é a quarta revolução que dela vai nascendo.

Não é possível prever, por ora, dentro da perspectiva marxista, como será a quarta revolução. Ela deverá consistir, segundo os próprios teóricos marxistas, na derrocada da ditadura do proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual — dizem os comunistas — o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e fraternidade até aqui insuspeitável.

Como? — É impossível não perguntar se a sociedade tribal sonhada pelas correntes estruturalistas não dá uma resposta a esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Em tal coletivismo, os vários eus ou as pessoas individuais, com o seu pensamento, sua vontade e seus modos de ser característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem — segundo eles — na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.

A Parte III de Revolução e Contra-Revolução termina com considerações sobre essa quarta revolução nascente. Foi escrita em novembro de 1976 e posteriormente acrescida de alguns comentários do autor, os quais foram reproduzidos em Catolicismonº 500, de agosto de 1992.

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Fonte: Revista Catolicismo, Abril 2009


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